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Xamã Contemporâneo

29 de setembro de 2008 | Por Eliel | Em Pesquisa |

Som repetitivo e drogas? Que tribo é essa? Estou falando dos índios Truká, que vivem na ilha Assunção, no município de Cabrobó, em Pernambuco. Segundo dados da Funasa (2006), são cerca de 4.169 índios que mantêm sua identidade religiosa e étnica dançando o Toré (ritual de integração entre os sentimentos indígenas e a natureza, buscando a conexão com a energia divina) , num terreiro marcado por uma cruz. Lá eles passam noite adentro com seus cânticos repetitivos acompanhados de maracás (chocalhos) feitos de cabaças e consomem a Jurema, planta considerada sagrada por diferentes culturas, para encontrar o mundo encantado. A música e a dança para esse povo são o portal para um novo estado psicológico de transcendência coletiva.

Qualquer semelhança com a música eletrônica é mera coincidência? Não, não é. Aí nos perguntamos: qual é a relação entre a cultura dos povos antigos e as recentes festas de música eletrônica? O processo só se modernizou com o aparato da tecnologia. Ao invés de chocalhos, são picapes computadorizadas. Já dizia Lavoisier: nada se cria, tudo se transforma. Na tradição indígena, o xamã é o mediador entre o mundo dos vivos e o mundo espiritual. E para chegar ao outro plano usam plantas com propriedades químicas que alteram a percepção. Como se fosse um xamã, o DJ convida as pessoas a se entregarem a um ritual coletivo da dança. Com seu set-list, manipula os sons. É um chanceler da vibe da galera. Ir a uma festa eletrônica é uma experiência multisensorial, pois o ambiente e as batidas seqüenciais fazem com que você entre em estado de transe. “Você sente sua respiração e seu coração em outro nível”, disse a raver Chris Fontes, de 28 anos.

É o arcaico e a tecnologia que se unem, com a música computadorizada, som tribal (repetitivo), luzes psicodélicas, dança primitiva e, para alguns, o uso de drogas. Para encantar ainda mais, tem pirofagia e circo – isso no caso das raves. Para reforçar essa relação xamãnica temos o fato de que o Ecstasy (bala) e o ácido lisérgico (doce) são substâncias presentes em toda a trajetória da música eletrônica, tendo a mesma finalidade dos rituais indígenas.

Há os que não aprovam. O DJ brasileiro mais votado do site americano The DJ List, Doctor Gil, é contra o uso de drogas na balada. “Todo mundo sabe que consumir drogas não é legal. Por que estragar uma boa noite, com um bom DJ, boas pessoas… por uma droga? Acho ridículo”, afirma.

Já o mestre em comunicação e cultura contemporânea pela Faculdade de Comunicação da Bahia (Facom – UFBA) Cláudio de Souza acredita que a cena hoje comporta usuários e não usuários de drogas, defensores e não defensores, mas a concepção de “estado alterado” estará sempre presente nesse cenário. A relação entre algumas culturas indígenas e a cultura urbana da e-music são interligadas diretamente no conceito de prazer e elevação do estado de espírito. O ponto mais crítico e polêmico é quando falamos de drogas. Cabe a cada um decidir se usa ou não. O que nunca pode se perder é o lema criado pelo DJ Frankie Bonés, em 1992: Plur – peace, love, unity and respect (paz, amor, unidade e respeito).

No livro Altered State, o escritor Mattew Collin diz que a e-music é o uso da tecnologia para acelerar a percepção do prazer. É uma forma de se libertar da experiência mundana do dia-a-dia e viver várias visões de drama, vitalidade e alegria.

* Matéria publicada na Revista HOUSE MAG – Edição de Setembro/2007

** Via Overmundo

*** Publicado ao som de Vibrasphere

Escrito por Eliel

Web designer e criador do Psicodelia, frequenta raves desde 2006. Apesar de ser um fã declarado de Full On, atualmente tem passado a maior parte do tempo ouvindo Gabe, Kanio, Khainz e Gustavo Bravetti. Já publicou 423 artigos no Psicodelia.

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8 Comentários


  1. Chaz
    29/09/2008

    po, sempre falei que tem tudo a ver, claro que te pessoas que vao pela balado, pra pirar e talz, mas tem muita gente que vai pq tah ligado essa parte da fuga q a gente tem desse cotidiano louco, e nao vejo problema em dropar um docinho ;]


  2. Marcelo
    29/09/2008

    Entendo que para quem olhe sem conhecer bem os dois lados, através das aparências, as duas coisas sejam semelhantes, rave e xamanismo. Na realidade são bem diferentes. As plantas utilizadas pelos xamãs alteram a consciência a ampliando, é um auxílio a um estado meditativo mais forte, e não distorcido como ocorre nas raves. Elas não te prejudicam como as drogas, pelo contrário, trazem benefícios físicos inclusive. Sei porque participo de rituais com a chamada planta de poder mestra ayahuasca, ela é legalizada para os rituais. Como o nome diz são rituais xamânicos, e cada um deles tem algum propósito de conexão espiritual, e não apenas diversão ou etc. Eis outra grande diferença. Abraço a todos!


  3. EduGomes
    30/09/2008

    … respeitando os dois tipos de experiências (o chamanismo e as raves), q c certeza trazem impactos sensoriais e transcedentais aos seus adeptos, devemos convir q há uma lacuna insuperavel nesses eventos: eles são momentaneos, ou seja, ‘passam assim q termina a sensação do momento’… porém, há uma experiêncie ainda mais transcedental, q pd deixar qquer um num estado de espírito elevado e superior, num estado de espírito q n pd ser abalado pelo cotidiano, em total conexão com o q alguns poderiam chamar de ser superior (Deus) e q tem um plus: n fica no espectro de uma sensação momentânea e passageira, mas te deixa brisado e em paz ‘full life’, sem precisar de bala ou doce… essa é a experiêncie de se viver na companhia diária de JESUS CRISTO… experimente essa sensação diária, conheça esse nome!


  4. OiYes
    1/10/2008

    Muito boa esta foto, vi o título mas não me interessei muito, mas quando vi esta foto aí sim resolvi entrar no post…

    Ótimo post por sinal, tá vendo, Psicodelia também é cultura!


  5. Eliel
    1/10/2008

    @OiYes: Que bom que gostou, e que a imagem ajudou. Tá vend só? Rave também é (muita) cultura. ;)

  6. Olá!

    ..tema muito recorrente o fato de que a música repetitiva seja com equipamentos tecnológicos ou simplesmentes aparatos arcaicos que fazem em um meio coletivo ,que traz um benefício espiritual e cultural.Relação bem associada!

    Parabéns!


  7. Celso
    30/06/2009

    As pessoas acreditam no que querem, isso é fato. Para acreditarem, encontram argumentos, mesmo que pareçam absurdos. Em primeiro lugar deve-se estudar o xamanismo, entender de fato o que significa uma experiência espiritual de uma experiência conseguida com o uso de drogas. Isso mesmo uso de drogas. o xamanismo não é nada do que foi descrito neste site. Nada mesmo, falar sobre uma pequena parte de um ritual de dança não é falar de xamanismo. Relacionar práticas ritualísticas com uma rave me parece ser a busca de um significado para algo quer deveria ser tratado apenas com uma FESTA RAVE e nada mais. Ficar repetindo o que se lê em diversos sites sobre a relação de festas raves com práticas tão sagradas quanto as xamanicas é muito mais fácil do que procurar sentido em sua própria existência. Analisemos alguns pontos:
    1-Relação com a natureza: Uma festa rave (que geralmente é realizada em locais com muita área verde) é uma invasão a qualquer ecossistema, por menos que seja, pense nos impactos ambientais, no lixo, no barulho que interfere diretamente na vida dos animais, poluição gerada pelo fluxo de veículos. Algum xamã faz isso?
    2-Relação entre as pessoas: Todos que estão drogados são simpáticos amáveis, abraçam, distribuem beijos.. isso é real? que convivência em grupo temos neste caso? Uma transcendência coletiva? Depois que o efeito passa e cada retorna pra casa isso continua? alguém se preocupa com o próximo? Amar quem não conhecemos é muito mais fácil!
    3-Relação com as substâncias alucinógenas: Esta é sempre uma questão delicada, algumas tradições indígenas utilizam estas substâncias com fins ritualísticos, mas pensemos no contexto. Dentro de algumas tradições somente determinadas pessoas tinham a “autorização” para ingerir estas substâncias, o que claramente nos leva a pensar em uma hierarquia e também no preparo(Intelectual, mental e espiritual) de quem consome. Isso não pode ser genralizado de forma alguma. Isso não pode justificar o consumo de drogas ilegais. Sem falar que as substâncias ingeridas nas raves são sintéticas. Pense como um xamã reagiria sabendo que aquilo que ele consome alimenta o tráfico de drogas violência, sem falar nos efeitos colaterais, enfim como disse no começo, as pessoas acreditam no que querem…
    Portanto caros amigos frequentadores de raves, não comparem isso com nenhuma prática espiritual, a teoria é definitivamente absurda

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