Publicado em: 08 de fevereiro de 2012 | Atualizado em: 08 de fevereiro de 2012

Música Eletrônica (não) é barulho - Por Gui Boratto

Leia na íntegra o texto do produtor Gui Boratto, publicado originalmente no Facebook, em resposta ao polêmico artigo veiculado no site do jornal O Estado de São Paulo.

Após toda a repercussão provocada pelo infeliz artigo de Marcelo Moreira, vemos um grande profissional da música eletrônica se pronunciar sobre o caso. Confira na íntegra a opinião de Gui Boratto, em um texto publicado originalmente em sua página no Facebook, que tomamos a liberdade de reproduzir aqui no Psicodelia.org, para que extrapole a barreira das redes sociais:

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No dia 17 de janeiro de 2011, o jornalista Marcelo Moreira, publicou no respeitado O Estado de S. Paulo, um artigo, na minha humilde opinião, um tanto áspero sobre música eletrônica.

Neste texto refere-se à música eletrônica, como barulho. 

Afirmou que o sintetizador, inventado no final dos anos 60, é algo abominável. Massacrou artistas internacionais como Jeff Beck, Eric Clapton e nacionais como Edgard Scandurra (Ira!) e Iggor Cavalera (Sepultura).

Gostaria inicialmente de ponderar o seguinte.

O sintetizador abominável , foi, na verdade inventado e patenteado em 1928, por um russo chamado Léon Theremin. O invento é tão incrível que até nos dias de hoje, existem grupos de teremistas, os quais apresentam-se em museus, teatros, espaços públicos, etc.

Diversos artistas ainda exploram sua textura e sua peculiaridade de portamento. É o caso de nossa querida Rita Lee, por exemplo, que o vem utilizando desde a época de “Os Mutantes”. 

O jornalista também afirma que DJ não é músico. Realmente não precisa necessariamente ser. Aliás, essa nunca foi sua proposta. Devo ressaltar ainda que alguns DJs executam suas próprias produções e DJs que executam composições de parceiros.

Eu, por exemplo, sou produtor e tenho a formação de músico. Estudei guitarra e piano por quase 15 anos. Por sorte da vida, tive o privilégio de ser aluno da professora e concertista (já falecida), Dirce de Moraes. A mesma foi aluna do célebre compositor, professor e musicólogo alemão Hans-Joachim Koellreutter, mais tarde exilado no Brasil, tornando-se grande amigo de Villa-Lobos, além de ser o primeiro professor de piano e harmonia de Tom Jobim, um dos pais da bossa-nova.

No final dos anos 80, comecei a “enjoar” da básica formação de rock: baixo, bateria e guitarra, passando a partir daí, a me enveredar pelas bandas pós-punk, que “flertavam” com sintetizadores. Foi o exato momento em que comecei a programar riffs e outros elementos com sequenciador e outros recursos, como sintetizador e sampler.

Posso dizer que demorei mais de 10 anos para “entender” o universo do “techno” e sua complexa simplicidade. Ao mesmo tempo que o techno é simples, ele é complexo nas texturas e na sua repetitive estrutura musical. O mesmo possui uma “paleta de cores” única, assim como uma pintura cubista de Braque ou Picasso, cheia de regras e intenções bem específicas. Aliás, tudo que se refere a arte, está repleto de intenções.

Para um leigo uma pintura acadêmica, como uma tela de Dario Mecatti ou Benedito Calixto, pode parecer mais complexa, mais erudita, mais difícil de ser pintada e até com maior valor artístico, se comparada a uma tela de Joan Miró ou Pablo Picasso. Há quem deve achar que um Miró ou um Picasso não são arte; qualquer um poderia pintá-los.

O próprio Picasso um dia disse a seguinte frase:

"Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças..."
Vangelis deve estar se contorcendo em seu túmulo. Sim, o grande compositor, vencedor de Oscar, criador da maravilhosa trilha de “Blade Runner”, usou e abusou de sintetizadores para expressar suas composições, não só feitas de melodias e harmonias, mas carregadas de uma textura criada por osciladores, que geravam “sons” através da eletricidade. Vangelis deixou um legado para a posteridade. Legado esse, executado por sintetizadores.

Para aqueles que escutam apenas jazz conceitual, cheios de improvisos e virtuosismos, a bossa-nova ou um simples e bom rock podem parecer musicalmente pobres.

Arte é algo pessoal e íntimo. 

As pessoas têm o direito de gostar ou não. 

O jornalista pode não gostar da fase do Clapton em que ele utiliza esses aparatos e ferramentas eletrônicas, ou do Edgard Scandurra, ou ainda do Iggor Cavalera; outras pessoas os adoram.

Última observação: estes artistas fazem música com amor.

Gui Boratto – Arquiteto, músico e produtor.

via Facebbok

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Escrito por: Eliel Cezar

Web designer e criador do Psicodelia. Apreciador da música eletrônica em seus mais variados estilos, desde o bom e velho Psytrance até o Electro Farofa.

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