A cultura do sampling e a música eletrônica

Mohamad | Em 16/05/2011 às 23:48 - atualizado em 16/05/2011 às 23:54

A cultura do sampling e a música eletrônica

Os maiores sucessos do Daft Punk tem base em samples de outras músicas. Até que ponto é positivo usar samples na produção da música eletrônica?

Para começar, vejam este video.

Antes que comecem a jogar pedras, o Daft Punk adquiriu os direitos sobre os samples e creditou seus autores nos encartes, bonitinho como tem que ser. A questão que levanto é: até que ponto a cultura do sampling em produções é positiva para a música eletrônica?

O primeiro argumento que você pode ter pensado é: o sample é a base do trabalho de um DJ. Sim, de fato, o verdadeiro DJ não dá só o play - ele cria loops, mash ups, build ups e uma infinidade de intervenções na música original, para as quais muitas vezes um sample é essencial. Mas acho que já possuímos um nível de maturidade no assunto para separar DJs de produtores, e são estes que deveriam ser menos samplers e mais autorais em seu trabalho.

É como no pop: artistas que fazem versões de sucessos (os tais covers) com maestria possuem seu brilho, mas ainda são os grandes compositores que se destacam. É essa a relação que faço entre grandes DJs e produtores geniais: ambos com suas qualidades, mais o segundo que deveria ser mais valorizado.

É de grandes produtores-compositores que precisamos para que a música eletrônica seja vista com seriedade e valor pelo resto do mundo. Daquele cara que faz uma melodia marcante, uma música para servir de tema para a vida dos fãs, uma letra revolucionária (afinal, quem foi que disse que e-music não pode ter vocal?). E por isso sou contra o endeusamento do Daft Punk e dos sampleadores como um todo. Sim, seu trabalho é excelente e qualificado, suas músicas estão presentes até hoje no pop mundial, mais de 10 anos após o lançamento. Porém, suas músicas não são de fato suas, são re-trabalhos em cima da música de outros artistas, que as compuseram 30, 40 anos atrás. E onde fica a tal criatividade e originalidade que tanto defendemos para nosso estilo?

Por que não buscar artistas como Trentemoller, que compõe e produz músicas pra deixar 95% da cena pop-rock parecendo dó-ré-mi-fá? Ou um Gui Boratto, que tem composições tão qualificadas que já foram interpretadas por orquestras? Enfim, diversos outros grandes produtores, que se estivessem empunhando guitarras e entonando refrões pegajosos, estariam na boca do povo.

 

Vamos valorizar o trabalho de todos da forma que lhes é reservado. Grandes DJs, continuem fazendo seu impressionante trabalho com samples, effects, scratches, botando clubs abaixo. Grandes produtores, façam história com suas próprias melodias e composições, e sejam sampleados pelos DJs. A cena só tem a ganhar.

ATENÇÃO! É importante deixarmos de lado discussões existenciais dizendo que atualmente não existe conteúdo 100% autoral, por todo tipo de combinação musical já ter feita algum dia em uma parte do mundo. Vamos partir do pressuposto de que se o produtor criou a música sozinho, sem copiar ou samplear ninguém, o fato de possivelmente no outro lado do mundo surgir algo semelhante foi uma infeliz coincidência.








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Mohamad Hajar Neto

Mohamad respira música eletrônica. Ferrenho defensor do estilo, o diretor de marketing do Psicodelia.org fará o impossível para fomentar a cena com conteúdo e qualidade. Paralelamente, faz parte do Kultra, projeto de techno, sua vertente favorita.

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